E a menina se afasta. Você a
deixa ir. As botas de borracha dela fazem um barulho ensurdecedor naquele
momento. Seu coração está escuro, e faz muito, muito frio. A garota avança mais
um passo, e você continua observando-a do outro lado da vidraça. As gotículas
de chuva começam a atrapalhar a sua visão, mas você não para de observá-la.
O
temporal é forte o bastante para encharcar as roupas da garota, mas ela não se
importa com aquilo no momento. Apesar de estar tremendo de frio, a chuva era a
última coisa que conseguia ser capaz de preocupá-la.
As
vozes em sua cabeça não cessam, e o barulho das botas vai ficando cada vez mais
alto. Os trovões são incapazes de se controlar, lançando seus raios e reproduzindo
sons que ela mesma é incapaz de prestar atenção.
A
garota some. Você a deixa ir embora. E seu coração está vazio demais para se
importar com toda aquela chuva caindo sobre a garota encharcada. A sua
menininha. A sua pobre, louca e indefesa menininha. Aquela que você amava. A
mesma que você deixou partir.
Pobre
rapaz. Tão estúpido! Sabia que no
momento em que ela passasse por aquela porta que ela nunca mais voltaria para
casa.
Você
olha ao seu redor. Tudo o que vê, são as quatro paredes brancas da sala. Nada
mais consegue preencher a sua visão, já que ela começa a ficar turva.
O frio
te persegue e a dor, te consome. Mas você não consegue parar de olhar para
aquelas paredes, que sabiam de todos os seus segredos e de toda a sua agonia.
Você
tinha prometido que compartilharia seus segredos com mais alguém além daquelas
paredes e agora, novamente, se encontrara sozinho com elas.
Paredes
brancas, frias e vazias.
Assim
como si mesmo.
Idiota.
Como pôde deixá-la partir?
Você
olha para fora, e tudo o que consegue ver são os raios e a chuva despencando no
céu.
Foi
naquele instante em que caiu a ficha.
A sua
linda menininha se foi para nunca mais voltar.